Em meu importante
gig na indústria pesqueira nacional, implementando um rígido sistema de controle de qualidade, fico de pé praticamente o tempo todo: das oito da manhã às cinco, seis da tarde. É por isso que não dá para visitar os amigos que possuem estabelecimentos na pacata cidade de Saigon; não se preocupe, Vitor. Além de careca, estou ficando cego. Muito em breve, precisarei de seus serviços. Abraço, irmão pombo.
Todo esse tempo em pé ralando, cansa, malandro. Pacas. Mas é muito bom: como diria
Don Ramón,
"não existe trabalho ruim; o ruim é ter que trabalhar". A perspectiva da vida é outra depois que você passa para o outro lado da relação produtiva.
E posso dizer que minha vida de
playboy era doce, mas não deixa saudades. Apesar deste ser um projeto de curto prazo, seus efeitos são permanentes. Sempre respeitei muito os exercentes de funções consideradas "menos importantes" pela "sociedade" (chavão atrás de chavão... desconto, por favor, estou cansado); sempre pensei que Gisele Bündchen poderia morrer esmagada por um contêiner amanhã - uma greve de
top models e o mundo continuaria girando. Agora, se os garis entram em greve,
babou, compadre. A cidade pára; e, com essa chuva toda, ainda bóia no cocô.
Após a presente experiência, minha admiração pelo trabalhador braçal aumenta ainda mais. Se tem alguém que move o Brasil pra frente é esse cara. Seu grande problema é ser anônimo, não dar notícia nos grandes meios de comunicação, formar uma maioria silenciosa, porém longe de ser inerte. Tem lá seus defeitos, mas a maioria deles é oriunda da falta de educação. Não que ele não a tenha buscado; ela simplesmente lhe foi negada. Enquanto isso, nós (eu, inclusive) das classes média e alta (eu,
exclusive [sic]) desperdiçamos boa parte das oportunidades que a vida nos dá. E ainda reclamamos de um porrilhão de coisas.
Estou fazendo uma
mea culpa misturada com desabafo, mas longe de mim querer julgar alguém. Cada um sabe onde o calo aperta, cá sei eu apenas dos meus. O que posso dizer é que tive os meus percalços, mas uma virada de olhos para trás e você vê muita gente ralando o cu na ostra apenas para sobreviver. Viver, para a maioria da população mundial, não passa de força de expressão, quiçá um sonho. A maioria sobrevive, mesmo.
Como disse um sujeito mais esperto que eu (são poucos, mas existem), "experiência é o que te permite substituir os erros antigos por novos"; com vinte e oito anos apenas, ainda devo enfiar o pé na lama um sem-número de vezes. Mas - pra fechar com chavão de ouro - vivendo e aprendendo. Espero que o camarada leitor passe a pensar duas vezes antes de destratar o ascensorista, o zelador, o caixa de mercado; que o amigo pense na trabalheira que dá enfiar o pescado na latinha e agradeça a Papai do Céu por toda essa gente.
Gente que torna possível um pequeno milagre como esse. Atum em lata. Sensacional.
PS: Não faço idéia de quando volto a pescar
ou comer peixe, mas acho tudo isso muito foda.
[Nas carrapetas: Takin' Care of Business - Bachman-Turner Overdrive (Bachman-Turner Overdrive II)]
Procure por Bachman-Turner Overdrive no Buscapé - rock'n'roll na veia, malandragem!