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sexta-feira, julho 28, 2006

Essa dor que não tem fim

    Saio do laboratório com o resultado da tomografia debaixo do braço. O consultório do otorrino é logo ali, do outro lado da rua. Aparecer sem hora marcada é sinônimo de espera até a possibilidade de ser atendido. A cabeça ainda dói, o corpo se ressente da má alimentação, sono insuficiente e do desgaste pelas infinitas conjecturas sobre a causa da dor.
    Após duas horas de espera, um misto de felicidade e decepção: o exame não acusa nada, nadinha. Minhas vias aéreas estão normais, limpas e desobstruídas. Ao menos o meu desvio de septo é discreto. Nada pior que um desvio de septo barraqueiro e escandaloso.

    Entonces, ¡hombre!, ¿que carajo causava la dolor?

    Uma pequena fratura dentro do nariz.

    ¿Como, hombre?

    Não sei, não consigo me lembrar. Alguma porrada, sob alguma circunstância. Provavelmente alguma carraspana, chegando em casa bêbado como uma gambá e dando com os cornos na cama de cima da beliche.

    Mescalero, sos un pelotudo, mismo...

    O importante é que a pancada causou a fratura e dores, mas não deixou seqüelas, principalmente em minhas faculdades mentais. Próxima parada: ortopedia. De repente, amanhã eu posto algumas imagens da tomografia por aqui. Exame chique, rapaz; ganhei um CD com os resultados gravados de brinde e tudo. Eu, que sou do tempo da abreugrafia, fico maravilhado com essas modernidades. Agora, se vocês me dão licença, vou pegar meu Ford Bigode, meu chapéu panamá e irei até a Confeitaria Colombo tomar uma média com pão canoa e manteiga. Obviamente, terei que ir por Magé, pois não existe ponte sobre a baía da Guanabara. Já é tempo de trazer o assunto à baila no gabinete de Getúlio. Amplexos a todos!


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segunda-feira, julho 24, 2006

O.C. - Opúsculo Cômico

Era um lugar tão frio, mas tão frio que as pessoas faziam sauna na geladeira.


    Rinossinusite pintando na área. Tomografia computadorizada amanhã. Antes um desvio de septo que um de caráter...
    Quinta-feira já devo saber se comemoro com os amigos ou aviso pra quando é o velório.


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domingo, julho 23, 2006

1024 x 768 pixels

    A vida deveria ser "a nível de" (sic) mil e vinte e quatro por setecentos e sessenta e oito pixels. Todos deveriam ter uma "área de vida" maior, ainda que espremida em um tubo de raios catódicos de quinze polegadas. Minha vida, assim como meu monitor, está ultrapassada. Estou oficialmente obsoleto - e em oitocentos por seissentos pixels.
    O ápice de nossa existência está ali, entre os dezoito e os vinte anos de idade. Depois disso, é só ladeira abaixo. Não me venham com esse papo de vinho e melhorar com o tempo; estou mais para vinagre, hoje. Domingo de sol, é verdade, mas sem praia de Ramos.
    O corpo ainda se ressente das horas em cima do tatame, durante a semana. Forçando músculos e tendões ao máximo, a idade já sente o peso do frio que vigora nessa época do ano apesar dos trópicos. Como, homem? Apenas vinte e oito anos! Devo lembrar-me de que nunca primei pela forma física, especialmente no que tange à elasticidade. Sou tão flexível quanto o bloco de concreto armado mais próximo.
    A cabeça fervilha com as últimas notícias do Brasil e do mundo, devidamente fermentadas com um papo no bar, muito refrigerante de cola (e eu vou dar mole em jabá pra multinacional?), tabaco e os melhores amigos. Não, isso não é saudável. O que foi feito da ingênua esperança que tínhamos no futuro, quando usávamos uniforme escolar e tomar uns tragos em sala de aula era uma pequena aventura spielbergiana?!
    Boa parte de minhas angústias gravita em torno da dificuldade em aceitar o envelhecimento. Queda de cabelo, problemas de saúde, astenia e chinelo-com-meias para evitar "friagem". Enquanto isso, miro a figura de Ueshiba Morihei, fundador do Aikidō. Um simpático idoso japonês, de barbas longas, cujo vigor físico sem igual em sua juventude transformou-se, ao fim da vida, em um poder espiritual que ainda carece de plena compreensão.
    Pergunto-me o que me aguarda no ponto final. Na vida, tudo é passageiro... excetuando-se, claro, trocador e motorista.


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quarta-feira, julho 19, 2006

Vida de gado

    Andei meio afastado de minhas "atividades laboriais" na rede por conta de uma monografia de minha irmã. Dividir um computador entre três pessoas é trabalho pra Salomão nenhum botar defeito! Claro, sou um rapaz de fases - fases, não fezes, embora a segunda seja alegadamente o combustível de minhas idéias ("você tem merda na cabeça, menino? Como é que você me escreve essas coisas?!"); tem dias em que olho para o PC, ele olha para mim e ambos dizemos em uníssono: ô, crioulo difícil! Nojento, tcham.
    Fico matutando meios de arrecadar fundos. Aprovado em concurso público para o BNDES, falta a convocação para assumir o cargo. Convocação esta que deve sair em "agosto". A gosto de Deus, claro. Fim de semana, viagem à Araruama para aniversário de quatro anos de minha prima; muito bom rever a família, muito bom respirar aquele ar da Região dos Lagos. Meu primo, um tanto "urubulino" em seus comentários, me aconselha: não pare de estudar, faça outros concursos. Um amigo meu passou para o BNDES e resolveu se encostar na sombra do boi. Está esperando há DEZ anos...
    Melhor prevenir que remediar. E essa rinite que não passa...
    Tem dias em que dá vontade de largar tudo e tentar uma vida mais simples em alguma cidadezinha litorânea. Pescar, viver na praia, viver no sol. Minha pequena e eu. Saúde e água de côco pra dar e vender. Sonho idílico que esbarra em nossa triste realidade urbana, celerada e acelerada, de muito trabalho para pouco ou nenhum reconhecimento.

    Mais café, por favor. E um cigarro. Estou tentando largar, mas a vida não larga de mim.


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sexta-feira, julho 07, 2006

Dodói

    Resfriado filho da puta, finalmente me pegou. Após meses tomando banhaços de água fria (louco, eu?), resolvi voltar ao vapor e tentar diminuir a dor no nariz. Causa provável? Rinite, sinusite, algo do gênero e mal-curado. A dor realmente se foi após o fim da tortura gelada, mas a gripe não fez cerimônia alguma para se instalar em meu organismo.
    Detesto ficar gripado. Coristina, Vicky Vaporub, Vicky Pirena, chá verde, própolis, canela, limão, gengibre... meu arsenal contra o resfriado não tem fim. A dor, o desânimo e o nariz escorrendo também parecem não ter. A perda excessiva de água, a secura na boca, tudo parece inflamado, irritado, arranhando. Inferno.
    Definitivamente eu fico um saco quando estou doente.
    Ok, provavelmente estou pagando tributo por uma desgastante jornada de trabalho e alguns excessos que andei cometendo. Mea culpa à parte, eu culpo o sistema. And so does Michael Moore. Como assinante de sua newsletter, recebi hoje o anúncio de seu próximo filme: Sicko, um retrato do sistema de saúde estadunidense. Parece que as coisas por lá não são muito diferentes daqui. No país mais próspero do mundo, 45 milhões de pessoas não tem acesso a serviços de saúde e tudo gira em torno do vil metal. Familiar?
    Claro que sim. O problema é o modelo de produção. Ou não? Talvez seja o modelo de distribuição das riquezas geradas. E a causa ecológica? Até onde poderemos desenvolver nossa civilização sem comprometer por completo o planeta onde vivemos?! Globalização. Internacionalização da cultura, comércio, hábitos, supressão dos localismos, das particularidades de cada povo. O objetivo é um só - grana - mas o paradigma que orienta as operações tem de vir de algum lugar. E esse lugar é a América, home of the free and the brave.

    Bom ou ruim? Não, estou muito mal de saúde para me dar ao trabalho de entrar no mérito da questão agora. A ironia é ter que concordar com Fernando Collor: "o tempo é senhor da razão". Enquanto isso, em meu microcosmo, pergunto-me se valeria a pena deixar uma prole neste mundo de merda em que vivemos. Crueldade ou egoísmo?

    Digressiono. Hora de mais antitérmico e analgésico.


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sexta-feira, junho 30, 2006

Ralando o cu na ostra

     Sexta-feira à noite ganha outro significado: cama para que te quero, descanso merecido. Após nove horas de pé, exausto, cheirando a peixe e sendo perseguido nas ruas por hordas de gatos famintos, finalmente chego em casa. Feliz.
     Triste é chegar em casa e não ter água, porque a obra na cisterna ainda não acabou.
     Alguém tem que morrer.

     Quarta-feira que vem, Deus queira e estarei de volta ao Cerol. Metade do projeto já foi concluída; falta a metade maior (a segunda metade de um trabalho sempre é maior). Pensando de forma otimista, falta menos do que faltava. Pombo, Pouca-sombra, Quevedo e Carne Assada, podem ir tirando a Bohemia da geladeira!
     Hosken, vê se aparece logo em Pindorama! Discutir política com você via internet não é a mesma coisa; estar coberto de razão e não poder sacaneá-lo ao vivo não tem graça!
     Beijundas, meu querido. Não esqueça o meu bumerangue.

     Vitor, se eu votasse em Saigon, meu prefeito seria você. Como voto em Niterói, mesmo, continuarei com meu candidato de longa data: macaco Tião. Maldita urna eletrônica, eu te odeio! Se ao menos o TSE tivesse mantido a opção de voto em Kid Mumu... a democracia não vale o meu ovo esquerdo. O direito, então, nem se fala; vive citando Roberto Campos e insiste nesse papo de privatização e neoliberalismo. O negócio é descer o cacete nos dois!

     Caramba! A cada dia que passa eu me supero mais e mais na divina arte do duplo sentido. No bom sentido, claro.


[Nas carrapetas: Working Man - Rush (Rush)]


CD's do Rush? Só no Buscapé, Zé Mané... e se você não gosta de Rush, bom sujeito não é.

quinta-feira, junho 29, 2006

That's why they call me the working man

     Em meu importante gig na indústria pesqueira nacional, implementando um rígido sistema de controle de qualidade, fico de pé praticamente o tempo todo: das oito da manhã às cinco, seis da tarde. É por isso que não dá para visitar os amigos que possuem estabelecimentos na pacata cidade de Saigon; não se preocupe, Vitor. Além de careca, estou ficando cego. Muito em breve, precisarei de seus serviços. Abraço, irmão pombo.
   Todo esse tempo em pé ralando, cansa, malandro. Pacas. Mas é muito bom: como diria Don Ramón, "não existe trabalho ruim; o ruim é ter que trabalhar". A perspectiva da vida é outra depois que você passa para o outro lado da relação produtiva.
     E posso dizer que minha vida de playboy era doce, mas não deixa saudades. Apesar deste ser um projeto de curto prazo, seus efeitos são permanentes. Sempre respeitei muito os exercentes de funções consideradas "menos importantes" pela "sociedade" (chavão atrás de chavão... desconto, por favor, estou cansado); sempre pensei que Gisele Bündchen poderia morrer esmagada por um contêiner amanhã - uma greve de top models e o mundo continuaria girando. Agora, se os garis entram em greve, babou, compadre. A cidade pára; e, com essa chuva toda, ainda bóia no cocô.
     Após a presente experiência, minha admiração pelo trabalhador braçal aumenta ainda mais. Se tem alguém que move o Brasil pra frente é esse cara. Seu grande problema é ser anônimo, não dar notícia nos grandes meios de comunicação, formar uma maioria silenciosa, porém longe de ser inerte. Tem lá seus defeitos, mas a maioria deles é oriunda da falta de educação. Não que ele não a tenha buscado; ela simplesmente lhe foi negada. Enquanto isso, nós (eu, inclusive) das classes média e alta (eu, exclusive [sic]) desperdiçamos boa parte das oportunidades que a vida nos dá. E ainda reclamamos de um porrilhão de coisas.
     Estou fazendo uma mea culpa misturada com desabafo, mas longe de mim querer julgar alguém. Cada um sabe onde o calo aperta, cá sei eu apenas dos meus. O que posso dizer é que tive os meus percalços, mas uma virada de olhos para trás e você vê muita gente ralando o cu na ostra apenas para sobreviver. Viver, para a maioria da população mundial, não passa de força de expressão, quiçá um sonho. A maioria sobrevive, mesmo.
     Como disse um sujeito mais esperto que eu (são poucos, mas existem), "experiência é o que te permite substituir os erros antigos por novos"; com vinte e oito anos apenas, ainda devo enfiar o pé na lama um sem-número de vezes. Mas - pra fechar com chavão de ouro - vivendo e aprendendo. Espero que o camarada leitor passe a pensar duas vezes antes de destratar o ascensorista, o zelador, o caixa de mercado; que o amigo pense na trabalheira que dá enfiar o pescado na latinha e agradeça a Papai do Céu por toda essa gente.
     Gente que torna possível um pequeno milagre como esse. Atum em lata. Sensacional.

     PS: Não faço idéia de quando volto a pescar ou comer peixe, mas acho tudo isso muito foda.

[Nas carrapetas: Takin' Care of Business - Bachman-Turner Overdrive (Bachman-Turner Overdrive II)]


Procure por Bachman-Turner Overdrive no Buscapé - rock'n'roll na veia, malandragem!